Estudo Bíblico ✦ Apocalipse 11 – Ezequiel 37 – Daniel 12
As duas testemunhas, o vale dos ossos secos e o relógio de Daniel — três linhas independentes convergindo no ano em que os ossos se puseram em pé.
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O ano que fecha a conta
| “E depois daqueles três dias e meio o espírito de vida, vindo de Deus, entrou neles; e puseram-se sobre seus pés, e caiu grande temor sobre os que os viram.” APOCALIPSE 11:11 |
Daniel recebeu ordem de selar as palavras “até ao tempo do fim” (Dn 12:4, 9); João recebeu a ordem inversa: “não seles as palavras da profecia deste livro” (Ap 22:10). O organograma de Deus — a volta visível, a ressurreição, o reino, a Nova Jerusalém — sempre esteve legível, e os primeiros pais o leram corretamente. Mas o relógio, esse permaneceu aguardando: uma profecia de tempo só se torna conferível quando sua segunda ponta acontece. Uma cadeia que termina em 1948 era, por definição, ilegível em 1748 — não por falha das gerações anteriores, mas porque a conta ainda estava aberta. “Os entendidos entenderão” (Dn 12:10) — no tempo do fim, não antes.
Este estudo apresenta três pilares de naturezas diferentes e independentes — um cronológico, um textual, um histórico — que convergem no mesmo ano. Nenhum foi construído para sustentar os outros; cada um pode ser conferido em separado, na pior das hipóteses com uma Bíblia e uma enciclopédia. Ao final, aplicamos a cada peça a nossa balança: o que é explícito no texto, o que é interpretação nossa, e o que permanece em aberto.
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Primeiro Pilar — Cronológico
A cadeia que só fecha em 1948
Daniel 7:25 e 12:7 dão o prazo da grande opressão: “um tempo, e tempos, e metade de um tempo” — entregue com juramento solene, o varão sobre as águas com as mãos erguidas ao céu, jurando “por aquele que vive eternamente” que tudo se cumpriria “quando se acabar a destruição do poder do povo santo” — isto é, quando cessar o seu espalhamento. O Apocalipse traduz a cifra: a mesma mulher que passa “mil duzentos e sessenta dias” no deserto (12:6) passa ali “um tempo, e tempos, e metade de um tempo” (12:14) — o livro decifra a si mesmo: 3,5 tempos = 1.260 dias = 42 meses (11:2; 13:5). Pelo princípio que a própria Escritura declara — “cada dia por um ano” (Nm 14:34; Ez 4:6) — são 1.260 anos.
O ponto de partida: 688 d.C., o início da construção do Domo da Rocha sobre o monte do templo — data atestada pelo historiador al-Suyuti (1445–1505) — o monumento do domínio rival sobre o lugar santo, com inscrições que negam a divindade do Filho. A conta: 688 + 1.260 = 1948 — o ano em que o espalhamento do poder do povo santo terminou: o Estado de Israel proclamado em 14 de maio, o povo de volta à terra depois de dezoito séculos. Régua única: anos solares, do princípio ao fim — nenhuma troca de calendário no meio da conta.
| ✦ Na Balança ✦ Verificável: a equivalência 3,5 tempos = 1.260 dias é interna ao texto (Ap 12:6, 14); a data de 688 é posição citável (al-Suyuti; outras fontes dão 685/86, com inscrição datando a conclusão em 691/692 — divergência declarada); 14 de maio de 1948 é fato de almanaque; a aritmética, qualquer criança confere. Interpretativo: o dia-ano aplicado a este prazo, e a escolha do Domo como marco da contagem. É a nossa cadeia — original, sem precedente nos comentadores clássicos, e por isso apresentada com documentação em dobro. Registre-se o precursor de método: H. Grattan Guinness (Light for the Last Days, 1886) aplicou o dia-ano aos prazos de Daniel sobre o domínio islâmico de Jerusalém e apontou publicamente 1917 — trinta anos antes de Allenby — como fim do domínio otomano. Guinness não previu 1948 (sua última data foi 1934, e sua conta usava réguas múltiplas que criticamos); mas o acerto público de 1917 validou a família do método: 1917 libertou a terra; 1948 pôs o povo em pé nela. Dois degraus da mesma escada. |
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Segundo Pilar — Textual
João citou Ezequiel: o levantamento tem nome
| “E o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo.” EZEQUIEL 37:10 |
Coloque Apocalipse 11:11 ao lado: “o espírito de vida, vindo de Deus, entrou neles; e puseram-se sobre seus pés“. É citação quase verbal — o mesmo espírito entrando, o mesmo pôr-se em pé. E Ezequiel 37 não é uma profecia qualquer: é a única cujo significado o próprio texto declara — “estes ossos são toda a casa de Israel” (37:11) — e cujo desfecho o próprio texto localiza: “abrirei as vossas sepulturas… e vos trarei à terra de Israel” (37:12), “e vos porei na vossa terra” (37:14). A ressurreição nacional de Israel e o retorno à terra. João descreveu o levantamento das testemunhas com a linguagem oficial da profecia do retorno — dezenove séculos antes do cumprimento. E Paulo confirma a chave ao dizer que a readmissão de Israel será “vida dentre os mortos” (Rm 11:15): o Novo Testamento inteiro lê o retorno na gramática de Ezequiel.
| ✦ Na Balança ✦ Explícito: o paralelo verbal Ap 11:11 ↔ Ez 37:10 está no grego e na Septuaginta, conferível por qualquer leitor; a identificação dos ossos com Israel e do desfecho com o retorno à terra é declaração do próprio Ezequiel, não interpretação nossa. Interpretativo: concluir que João, ao citar Ezequiel, aponta o cumprimento das testemunhas para o evento que Ezequiel profetiza. É a leitura mais natural da citação — mas é leitura, e declaramos. |
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Terceiro Pilar — Histórico
Os três anos e meio
Apocalipse 11:7 fixa o momento e a natureza do golpe: “quando acabarem o seu testemunho, a besta que sobe do abismo lhes fará guerra, e as vencerá, e as matará” — a fórmula exata de Daniel 7:21. O relógio dos três dias e meio (= 3,5 anos pelo dia-ano, pela mesma régua dos 1.260) mede a morte, não a perseguição: abre quando a matança começa, fecha quando o espírito de vida entra. E se o testemunho em saco corre até 1948, a morte deve alojar-se nos anos finais da cadeia.
Ela está lá. A historiografia data o início do extermínio — a passagem da perseguição ao genocídio — em 22 de junho de 1941: a invasão da União Soviética, com os Einsatzgruppen iniciando imediatamente o assassinato em massa (Babi Yar é de setembro de 1941). E o desligamento da máquina ocorre na janela de novembro de 1944 a janeiro de 1945: as últimas gasificações, a ordem de Himmler para cessar e demolir os crematórios, a libertação de Auschwitz em 27 de janeiro. A conta: 22 de junho de 1941 + 3,5 anos (1.278 dias) = 22 de dezembro de 1944 — o ponteiro cai dentro da janela do desligamento, entre a ordem de Himmler e Auschwitz aberto, nas semanas em que os crematórios eram dinamitados. Não escolhemos marcos para fechar a conta: tomamos o marco inicial da historiografia secular e a medida do texto, e o ponto de chegada caiu sozinho sobre o túmulo da máquina.
A sepultura negada
Apocalipse 11:9 acrescenta um traço que nenhum outro evento da história cumpre com igual literalidade: “e não permitirão que os seus corpos mortos sejam sepultados“. No mundo bíblico, a recusa de sepultura é a desonra máxima (Sl 79:2-3; Dt 28:26) — e ao povo cuja Lei ordena o enterro no mesmo dia foi negado, sistematicamente, o túmulo: câmaras e fornos; cinzas lançadas em rios ou usadas como aterro; valas anônimas; e a operação que reabriu as valas para exumar e queimar os já enterrados, apagando até o enterro precário que houvera. Não foi apenas não sepultar — foi des-sepultar. Milhões sem túmulo, sem lugar para o Kadish. E Ezequiel viu exatamente isso: os ossos da sua visão não estão em túmulos — estão expostos “sobre a face do vale… sequíssimos” (37:1-2), e ainda assim Deus os chama de “vossas sepulturas” que Ele mesmo abrirá (37:12), porque nenhum insepulto está fora do alcance da Sua mão. E a profecia registrou até o lamento na boca do povo: “os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados” (37:11, ARA; no hebraico, nigzarnu — “fomos cortados fora”) — o testemunho exato dos que saíram dos campos.
A contemplação das nações
“E homens de vários povos, e tribos, e línguas, e nações verão seus corpos mortos” (11:9). Os governos aliados souberam a partir de 1942 — houve declaração pública interaliada em dezembro daquele ano — e viram sem agir. E em abril e maio de 1945, quando os campos se abriram, o mundo literalmente contemplou os insepultos: as libertações foram filmadas por ordem expressa do comando aliado, civis foram obrigados a ver, e as imagens correram os cinejornais de todas as nações. A exposição pública dos não-sepultados diante do planeta aconteceu, com câmera e data.
| ✦ Na Balança ✦ Firme: a duração de ~3,5 anos da fase exterminadora é sustentada pelos marcos padrão da historiografia, qualquer que seja o par escolhido dentro da janela; a negação de sepultura e a contemplação mundial são fatos documentados com precisão única na história. Declarado: a precisão reivindicada é de janela, não de dia — os dois extremos foram processos, e uma cifra profética aplicada à história não deve fingir exatidão de cronômetro. A morte não cessou por completo em dezembro de 1944: as marchas da morte e o tifo mataram até a primavera de 1945 — o que durou 3,5 anos foi a máquina de extermínio deliberado; a agonia do desmonte pertence à transição. E o marco alternativo intuitivo (a conferência de Wannsee, jan/1942) é reprovado às claras: a conferência coordenou uma matança já em curso, e sua conta estoura o fim da guerra (julho/1945). O traço que menos se encaixa, dito com todas as letras: “os que habitam na terra se regozijarão… e mandarão presentes uns aos outros” (11:10). Houve colaboracionismo e júbilo antissemita em muitos lugares — mas celebração universal não descreve 1941–45. Nenhuma correspondência tipológica cumpre todos os traços com a mesma nitidez; a força está no conjunto, e a fraqueza pontual declarada é o que separa este método do encaixe forçado. |
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A Identificação
Quem são as testemunhas
João as identifica citando: “estas são as duas oliveiras e os dois castiçais que estão diante do Senhor da terra” (11:4) — decalque de Zacarias 4, onde as duas oliveiras são “os dois ungidos que assistem junto ao Senhor de toda a terra” (Zc 4:14): no contexto, Zorobabel e Josué — realeza e sacerdócio, as duas unções de Israel, trabalhando juntas na restauração pós-exílio, sob o lema “não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito” (4:6). A visão-mãe das testemunhas é uma visão de retorno e reconstrução.
E Isaías dá o nome com selo triplo: “Vós sois as minhas testemunhas, diz o Senhor” (Is 43:10; repetido em 43:12 e 44:8) — dito a Jacó/Israel, como vocação nacional. Duas testemunhas, porque o testemunho válido exige duas bocas (Dt 19:15) — e porque o povo da aliança é dois desde o cisma: Judá e Israel/Efraim, as duas casas. E aqui o segundo pilar se desdobra: o mesmo Ezequiel 37 que dá o levantamento dos ossos (vv. 1-14) dá, na segunda metade, as duas varas — “Por Judá” e “Por José/Efraim” — unidas numa só na mão do profeta: “farei deles uma só nação na terra… e nunca mais serão divididos” (37:16-22). Duas entidades-testemunha que atravessam a história separadas, morrem juntas e se levantam como uma só nação na terra. Em 14 de maio de 1948, cumpriu-se à letra: um só Estado — a vara única.
Os poderes das testemunhas confirmam: fogo da boca (11:5) é a palavra dada ao profeta de Israel — “porei as minhas palavras na tua boca por fogo” (Jr 5:14); fechar o céu é Elias; águas em sangue e pragas é Moisés — e quem “tem Moisés e os Profetas” como depósito e voz (Lc 16:29) é o povo que os carrega. As testemunhas operam no caráter da Lei e dos Profetas porque são o povo do Livro — o que absorve, em vez de rivalizar, a leitura historicista clássica (testemunhas = as Escrituras): o povo e o Livro são inseparáveis como a oliveira e o azeite. Durante os 1.260 anos, a existência mesma do povo disperso com seu Livro intacto foi testemunho — e tormento — permanente diante dos senhores do monte; e as duas comunidades marcadas em Apocalipse 12:17 — “os que guardam os mandamentos de Deus” e os que “têm o testemunho de Jesus” — mantiveram a profecia audível a era inteira.
| ✦ Na Balança ✦ Explícito: a citação de Zacarias 4 em Ap 11:4; o “vós sois as minhas testemunhas” de Isaías dito a Israel; as duas varas de Ezequiel 37 no mesmo capítulo dos ossos; os poderes de Moisés, Elias e Jeremias. Interpretativo e minoritário: a identificação das testemunhas com o povo-testemunha nas suas duas casas é posição minoritária nos comentadores — assumimos o ônus. As leituras concorrentes ficam registradas: duas pessoas literais no futuro (futurismo — herdando os problemas do sistema); os dois Testamentos (historicismo clássico — absorvida, não rejeitada); e a objeção de que a morte de 1941–45 atingiu especificamente os judeus: respondemos que no século XX as duas varas já estavam reunidas no mesmo alvo — o extermínio não distinguiu casa de casa; matou a nação-testemunha enquanto tal. A resposta é defensável e segue em lapidação. |
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O Levantamento
Em pé (1945), e a subida (1947–48)
O texto dá o levantamento em dois movimentos: primeiro “puseram-se sobre seus pés” (11:11); depois a voz — “Subi para aqui” — e a subida à vista dos inimigos (11:12). E o molde de Ezequiel é explicitamente gradual: ruído, ossos achegando-se osso a osso, nervos, carne — “mas não havia neles espírito” — e só então o espírito e o pé (37:7-10). A profecia do retorno foi desenhada como processo em estágios. Assim se leu o cumprimento: no instante em que a matança cessa, os mortos-vivos se põem de pé — os campos abertos, os sobreviventes levantando-se (1945: o versículo 11); e a subida pública — os navios da imigração clandestina, o Exodus, a Assembleia das Nações votando a partilha em 29 de novembro de 1947 (as mesmas nações que contemplaram os corpos agora votam o levantamento), e a proclamação de 14 de maio de 1948 (o versículo 12). “Um exército grande em extremo” (Ez 37:10) cumpriu-se à letra: a primeira coisa que o Estado recém-nascido precisou ser foi um exército — invadido no dia seguinte por cinco nações, e vivo.
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O Versículo 13
Naquela mesma hora: o terremoto, a décima parte, os nomes
“E naquela mesma hora houve um grande terremoto, e caiu a décima parte da cidade, e no terremoto foram mortos sete mil homens; e os demais ficaram muito atemorizados, e deram glória ao Deus do céu” (11:13). A regra de posição é do texto: naquela mesma hora — o que quer que o versículo descreva, acompanha o levantamento; está, portanto, na década dos ossos, atrás de nós.
O grande terremoto: no Apocalipse, seismos é abalo de ordem estabelecida — o sexto selo derruba “montes e ilhas”, poderes (6:12-14). O seismos megas da mesma hora do levantamento é a própria convulsão de 1939–1945 — a maior sacudida da ordem mundial da história humana: dezenas de milhões de mortos, impérios desabando, o mapa refeito. Os ossos se levantaram de dentro do terremoto — como no texto, onde o abalo e a subida são a mesma hora.
A décima parte da cidade: se a “grande cidade” é a ordem gentílica e suas dez partes são os reinos da sua divisão (os dez dedos da estátua, os dez chifres), então uma décima parte caindo é um dos reinos desabando no terremoto. E o reino que caiu foi precisamente o executor: o Reich — Estado dissolvido, capital partida, território ocupado; o “império de mil anos” durou doze. É o padrão de Hamã: a queda sobre a casa que ergueu a forca (Et 7:10). E note a fração: a décima parte, não a cidade toda — a ordem gentílica não acabou em 1945 (sua queda plena pertence ao sétimo cálice, 16:19); caiu a parte que importava.
Os sete mil “nomes de homens”: aqui o original guarda um segredo que as traduções apagaram. A Almeida verte “foram mortos sete mil homens”; o grego diz apektanthēsan en tō seismō onomata anthrōpōn chiliades hepta — “foram mortos no terremoto nomes de homens, sete milhares”. O sujeito gramatical do verbo “foram mortos” são nomes. E a verificação em toda a Escritura revela que isto é caso único: em todas as contagens de mortos da Bíblia — as guerras de Davi, as pragas, os juízos — a fórmula é sempre “homens” (ish, anashim), “almas”, ou o número puro; jamais “nomes”. A fórmula “número de nomes” existe, mas do lado oposto: é a linguagem do censo dos vivos — “segundo o número dos nomes, cabeça por cabeça” (Nm 1:2, 18) — e de gente arrolada em registro (At 1:15; Ap 3:4). Apocalipse 11:13 é o único lugar da Bíblia inteira em que a fórmula do censo é aplicada a mortos de um juízo. João quebrou um padrão de mil e quinhentos anos de texto sagrado exatamente aqui — e quebra deliberada é mensagem.
O que a quebra decifra: os sete mil não são estatística — são um rol. Não “cerca de sete mil pereceram”, mas sete mil entradas nominais, definidas e fechadas por Deus naquela hora — um extrato de registro, na gramática das duas listas que percorrem o Apocalipse inteiro (os nomes escritos no livro da vida, 3:5; e os que nele não constam, 13:8; 17:8). E o harmônico de Elias confirma a natureza: os únicos outros “sete mil” da Escritura — “eu fiz ficar de resto sete mil em Israel” (1 Rs 19:18, no capítulo-protótipo deste capítulo) — eram também uma lista que só Deus conhecia: Elias não sabia quem eram; Deus tinha os nomes. Lá, o rol secreto dos preservados; aqui, o rol dos colhidos. As duas listas de sete mil da Bíblia são listas divinas e fechadas.
Até onde vai a decifração — e onde ela para: deciframos a natureza (é lista nominal, não número redondo; por isso descartamos as tentativas de conferi-la por estatística — inclusive o candidato tentador dos ~6.000 caídos de Israel em 1948, que além disso inverteria o versículo, pois os sete mil caem do lado da cidade abalada, não do lado das testemunhas). Mas não temos acesso à lista — e o próprio texto explica por quê: rol divino não se audita em enciclopédia. Esta é a única peça do quadro que não se confere com almanaque, e declaramos a profecia aberta neste ponto: o conteúdo do rol (títulos e dignidades tombados no terremoto? o censo nominal do juízo daquela hora?) pertence ao Juiz — “o Senhor conhece os que são seus” (2 Tm 2:19), e conhece também, nome a nome, os que caem. O que afirmamos é o que o grego afirma: no tribunal de Deus, ninguém morre como número — no mesmo século em que o inimigo reduzira o povo-testemunha a números tatuados, o juízo de Deus conta os seus alvos por nomes. E aberta assim, a peça se harmoniza com todos os demais pilares do quadro — o relógio de Daniel, os ossos e as varas de Ezequiel, as oliveiras de Zacarias, o censo por nomes de Moisés, o remanescente de Elias — sem forçar nenhum deles: um versículo com o selo do Juiz num capítulo de contas abertas ao leitor.
“Os demais, atemorizados, deram glória ao Deus do céu”: a única cena de juízo do Apocalipse que produz glória em vez de blasfêmia (contraste com 16:9, 21) — temor com reconhecimento, não conversão. E o pós-1945 é isso, documentado: Nuremberg criando “crimes contra a humanidade” — o mundo admitindo uma lei acima das nações; a Assembleia das nações votando a favor do que os profetas escreveram; as igrejas iniciando a demolição da teologia da substituição; e 1948 lido mundialmente, em manchetes e púlpitos, em chave de profecia cumprida. O mundo não se converteu — atemorizou-se e reconheceu. A temperatura exata do versículo.
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O Espelho
Ezequiel 37: o Apocalipse em um capítulo
O capítulo que João cita é, ele mesmo, um organograma completo — três pilares internos, na ordem exata do Apocalipse:
| ✦ Um Capítulo, Três Tempos ✦ Vv. 1-14 — o extermínio e o levantamento: os ossos insepultos do vale, “estamos de todo exterminados”, o espírito entrando, o pôr-se em pé, “na vossa terra”. Cumprido — fotografado entre 1941 e 1948. Vv. 15-23 — a nação una: as duas varas feitas uma, “uma só nação… e nunca mais serão divididos em dois reinos” (37:22). Cumprido em 14 de maio de 1948 — e em vigência auditável: a cláusula “nunca mais” segue valendo a cada dia que Israel permanece um só. Vv. 24-28 — o Rei e o Tabernáculo: “meu servo Davi será rei sobre eles… um só pastor… príncipe para sempre”; concerto perpétuo; “o meu tabernáculo estará com eles”. Aguardado — Apocalipse 20 e 21. |
E a ponta final do capítulo solda-se à ponta final do Apocalipse por citação literal: “o meu tabernáculo estará com eles, e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (Ez 37:27) é retomado, palavra por palavra, pela voz do trono na descida da Nova Jerusalém: “eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles” (Ap 21:3). O capítulo dos ossos termina onde o Apocalipse termina. E o versículo de fecho declara a função de tudo: “e as nações saberão que eu sou o Senhor” (37:28) — o testemunho.
Daqui nasce o argumento da fiança: dois terços do capítulo cumpriram-se na moeda da história — diante das câmeras. Com que base se declara que o terço final, da mesma tinta e na mesma sequência, é “só símbolo”? Se os versículos 1 a 22 aconteceram literalmente, os versículos 24 a 28 estão na fila, não na alegoria. Deus assinou a primeira metade como fiança da segunda. Estamos vivendo entre o versículo 22 e o versículo 24 — a nação em pé e una; o Príncipe ainda não assumido no trono visível. É a mesma vírgula de Daniel 7, entre o prazo vencido (v. 25) e o tribunal assentado (v. 26); o mesmo intervalo de Apocalipse 11, entre o segundo ai passado e o terceiro que “cedo virá” (11:14).
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O Porquê
A ira e o relógio
Resta a pergunta teológica: por que a fúria máxima de toda a era caiu exatamente nos anos finais do prazo? O capítulo 12 responde com um princípio declarado: o dragão, vencido no céu, desce “com grande ira, sabendo que já tem pouco tempo” (12:12) — e persegue a mulher que dera à luz o varão (12:13). A ira é proporcional ao relógio: quanto menos tempo, mais fúria — o dragão sabe contar. Se os 1.260 corriam para 1948, os anos 1941–1945 foram os últimos grãos da ampulheta — e a tentativa de exterminar a mulher inteira foi, nesse descortino, a última cartada contra o calendário: eliminar o povo era abortar o retorno e desmentir a profecia já marcada. Falhou como falha sempre: “a terra ajudou a mulher” (12:16), e três anos depois os ossos estavam em pé. A guerra que começou com o dragão tentando impedir um nascimento (o varão, Belém) terminou com ele tentando impedir um renascimento (os ossos, 1948) — e falhou nas duas pontas pelo mesmo motivo: os dois partos estavam no calendário selado que só o Cordeiro abre. [Este fio — as quatro engrenagens de Apocalipse 12 — receberá estudo próprio.]
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Conclusão: entre o segundo e o terceiro ai
Três pilares independentes — a conta (688 + 1.260), a citação (Ezequiel 37 em Apocalipse 11:11), a história (os 3,5 anos, a sepultura negada, a contemplação das nações) — travados uns nos outros como pernas de tripé, convergindo em 1948. Cada um poderia falhar sem derrubar os outros; em vez disso, sustentam-se mutuamente. E o capítulo-espelho de Ezequiel acrescenta a fiança: dois terços cumpridos garantem o terço que falta.
Este estudo é apresentado como a Escritura manda apresentar: “para testemunho” (Mt 24:14) — não para vencer debates, mas para deixar o registro lavrado. Toda afirmação verificável está referenciada; toda interpretação está declarada; toda questão aberta está marcada. O leitor de coração duro não é convidado a sentir — é convidado a conferir, na pior das hipóteses com uma enciclopédia. Se conferir e dobrar o joelho, achou a vida; se conferir e endurecer, o testemunho está dado. “Muitos serão purificados, e embranquecidos… os ímpios procederão impiamente, e nenhum deles entenderá, mas os sábios entenderão” (Dn 12:10).
O que o texto ainda diz, entre o levantamento e a trombeta, é um advérbio: “É passado o segundo ai; eis que o terceiro ai cedo virá” (Ap 11:14). Vivemos dentro desse advérbio. Tudo o que resta do capítulo é o versículo 15:
| “E o sétimo anjo tocou a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre.” APOCALIPSE 11:15 |
