Os Três Grupos de Almas
Apocalipse 6 e 7 — do quinto selo à grande multidão
Introdução — o Cordeiro abre os selos
No capítulo 5, João chorou porque ninguém era digno de abrir o livro selado que estava na destra de Deus — ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra. Até que um dos anciãos lhe disse: eis que o Leão da tribo de Judá venceu. E João viu um Cordeiro, como havendo sido morto, tomar o livro. Só Ele era digno, porque foi morto e com o seu sangue comprou para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação (Ap 5:9).
Agora, nos capítulos 6 e 7, o Cordeiro começa a abrir os selos. E, ao longo dessa abertura, o texto nos apresenta três grupos de almas diante de Deus — e o divisor de águas entre eles é Jesus Cristo.
Os Quatro Cavaleiros — o cenário da grande tribulação
Antes das almas debaixo do altar, o Cordeiro abre quatro selos, e de cada um sai um cavalo.
O texto é claro no que descreve (Ap 6:1-8). Do primeiro selo sai um cavalo branco: seu cavaleiro tem um arco, recebe uma coroa, e “saiu vitorioso, e para vencer”. Do segundo, um cavalo vermelho: ao seu cavaleiro foi dado tirar a paz da terra, para que os homens se matassem uns aos outros, e uma grande espada. Do terceiro, um cavalo preto: seu cavaleiro traz uma balança na mão, e ouve-se o preço do trigo e da cevada — a fome e a carestia. Do quarto, um cavalo amarelo: o nome do seu cavaleiro é Morte, e o inferno o segue, com poder para matar a quarta parte da terra com espada, fome, peste e feras.
Conquista. Guerra. Fome. Morte.
Agora repare nas palavras do próprio Senhor Jesus, no sermão do monte das Oliveiras, quando lhe perguntaram sobre o sinal da sua vinda:
“Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos. E ouvireis de guerras e de rumores de guerras… porquanto é mister que isso tudo aconteça… E haverá fomes, e pestes, e terremotos, em vários lugares. Mas todas essas coisas são o princípio das dores.” Mateus 24:5-8
A sequência é a mesma. Os que vêm vencendo em nome falso — o cavalo branco. As guerras e rumores de guerras — o cavalo vermelho. As fomes — o cavalo preto. As pestes e a morte — o cavalo amarelo. O que João viu nos quatro selos, Jesus já havia anunciado como o princípio das dores.
Entendemos, portanto, que os quatro cavaleiros não pertencem a um único momento da história: eles cavalgam durante toda a era da grande tribulação — estes quase dois mil anos desde a ressurreição de Jesus até os nossos dias. Conquista, guerra, fome e morte percorrem a terra em toda geração. E é exatamente de dentro desse cenário que sai a grande multidão do capítulo 7: os que vêm da grande tribulação, com vestiduras lavadas no sangue do Cordeiro.
Os cavaleiros cavalgam. Mas o Cordeiro é quem abre os selos. A história das dores está nas mãos de quem venceu.
Primeiro Grupo — as almas debaixo do altar (quinto selo)
Quando o Cordeiro abre o quinto selo, João vê debaixo do altar as almas dos que foram mortos por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram. Elas clamam em grande voz: “Até quando, ó verdadeiro e santo Dominador, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6:10). A cada uma foram dadas vestes brancas, e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos que haviam de ser mortos como elas.
Repare em um detalhe do texto: essas almas foram mortas “por causa da palavra de Deus e por causa do testemunho que deram” — o texto não menciona aqui o testemunho de Jesus. Entendemos que este primeiro grupo são os fiéis mortos antes da ressurreição de Jesus: os aproximadamente quatro mil anos de Adão até Cristo. Os justos que morreram na esperança, aguardando a redenção que ainda viria.
O Sexto Selo — a dobradiça entre a cruz e o juízo
Então o Cordeiro abre o sexto selo, e João vê uma visão de dois momentos.
O selo abre com sinais que já conhecemos: houve um grande terremoto, o sol tornou-se negro como saco de cilício, e a lua tornou-se como sangue (Ap 6:12). Não foi assim também no Calvário? Desde a hora sexta houve trevas sobre toda a terra (Mt 27:45; Lc 23:45), e a terra tremeu quando Jesus entregou o espírito (Mt 27:51). O profeta Joel já havia anunciado: o sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor (Jl 2:31) — palavra que Pedro cita no dia de Pentecostes (At 2:20). O sexto selo abre, portanto, com os sinais do sacrifício do Cordeiro.
E fecha com o grande dia da sua ira: os reis da terra, os grandes, os ricos e todo servo e todo livre se escondem nas cavernas e clamam aos montes e aos rochedos: “Caí sobre nós, e escondei-nos do rosto daquele que está assentado sobre o trono, e da ira do Cordeiro; porque é vindo o grande dia da sua ira; e quem poderá subsistir?” (Ap 6:16-17).
Na cruz, a ira caiu sobre o Cordeiro. No fim, virá a ira do Cordeiro. E a pergunta que encerra o capítulo 6 — quem poderá subsistir? — é respondida no capítulo 7.
Segundo Grupo — os cento e quarenta e quatro mil de Israel
O capítulo 7 abre com quatro anjos em pé sobre os quatro cantos da terra, retendo os quatro ventos, para que nenhum vento soprasse sobre a terra até que fossem assinalados os servos de Deus. E outro anjo sobe do lado do sol nascente, tendo o selo do Deus vivo, e assinala na fronte cento e quarenta e quatro mil, doze mil de cada tribo dos filhos de Israel (Ap 7:1-8).
Repare novamente na linguagem do texto: o anjo assinala “os servos do nosso Deus”. Não há aqui menção ao Cordeiro. Entendemos este segundo grupo como o projeto de Deus pelo seu povo escolhido: Israel, a descendência de Abraão, Isaque e Jacó, até Jesus se apresentar como o Filho de Deus. Deus é fiel ao seu povo e sela os seus.
Terceiro Grupo — a grande multidão que ninguém podia contar
Depois disto, João olhou, e eis uma multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas nas mãos, clamando: “Salvação ao nosso Deus, que está assentado no trono, e ao Cordeiro” (Ap 7:9-10). E um dos anciãos revela quem são: “Estes são os que vieram da grande tribulação, e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro” (Ap 7:14).
Aqui está o padrão que atravessa os dois capítulos: o Cordeiro só aparece no terceiro grupo. No quinto selo, a palavra de Deus e o testemunho. No selamento, os servos do nosso Deus. Mas a multidão está de pé diante do trono e perante o Cordeiro, com vestiduras lavadas no sangue do Cordeiro. Este é o grupo da fé em Cristo.
E entendemos que a grande tribulação de onde eles vêm são estes quase dois mil anos desde a ressurreição de Jesus até os nossos dias. Saulo, que se tornou Paulo e sofreu pela obra. Policarpo, morto queimado por não negar a Cristo. A igreja primitiva, perseguida, e os fiéis de toda geração até hoje. Depois de Jesus, os judeus crentes entram nessa mesma multidão: judeus e gentios enxertados na mesma oliveira (Rm 11) formam juntos, como cordeiros, o terceiro grupo. O próprio Senhor disse que Jerusalém seria pisada pelos gentios “até que se completem os tempos dos gentios” (Lc 21:24) — e Paulo fala da plenitude dos gentios que há de entrar (Rm 11:25). O número ainda está se completando. Ainda hoje.
Adendo — os cento e quarenta e quatro mil do capítulo 14: as primícias do Cordeiro
Mais adiante no livro, em Apocalipse 14, aparecem outros cento e quarenta e quatro mil — semelhantes em número aos de Israel, mas distintos deles. O texto os descreve como “comprados da terra” e “comprados dentre os homens, como primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14:3-4). Essa é exatamente a linguagem do cântico do capítulo 5: “com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação” (Ap 5:9) — a linguagem do terceiro grupo. Os cento e quarenta e quatro mil de Israel (Ap 7) não são descritos como comprados pelo sangue; estes de Apocalipse 14, sim. E só eles aprendem o cântico novo diante do trono. Entendemos, portanto, os cento e quarenta e quatro mil do capítulo 14 como um subgrupo da grande multidão: as primícias do Cordeiro.
E a Nova Jerusalém confirma o desenho. No grande e alto muro da cidade há doze portas, e nelas os nomes das doze tribos de Israel — vinculadas aos cento e quarenta e quatro mil de Israel. E o muro tem doze fundamentos, e neles os nomes dos doze apóstolos do Cordeiro — vinculados aos comprados com o sangue do Cordeiro (Ap 21:12-14). Portas e fundamentos, Israel e o Cordeiro, na mesma cidade.
A promessa — do capítulo 7 ao fim do livro
“Nunca mais terão fome, nunca mais terão sede… porque o Cordeiro que está no meio do trono os apascentará, e lhes servirá de guia para as fontes das águas da vida; e Deus limpará de seus olhos toda a lágrima.” Apocalipse 7:16-17
Repare como essa promessa casa com o final do livro: na Nova Jerusalém, Deus habitará com os homens, e limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor (Ap 21:3-4). O que é prometido à multidão no capítulo 7 é cumprido na cidade santa no capítulo 21. A resposta à pergunta “quem poderá subsistir?” é esta: subsistirão os que estão diante do trono e perante o Cordeiro, lavados no seu sangue.
Você quer estar nessa multidão?
