Apocalipse 4 e 5
O Trono e o Cordeiro
Depois das cartas às sete igrejas, a cena muda. Nos capítulos 2 e 3, Jesus falou à Igreja que está na terra; agora João é chamado a subir, e o que ele vê não são mais candeeiros sobre a terra, mas o trono que está acima de tudo. Os capítulos 4 e 5 formam uma única visão em dois movimentos: primeiro o trono de Deus (cap. 4), depois o livro selado e o Cordeiro que é digno de abri-lo (cap. 5). É a sala do trono de onde sairá todo o resto do Apocalipse — os selos, as trombetas e as taças. Antes de qualquer juízo, o céu adora.
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1. “Sobe aqui” — a porta aberta no céu
Depois destas coisas, olhei, e eis que estava uma porta aberta no céu; e a primeira voz, que como de trombeta ouvira falar comigo, disse: Sobe aqui, e mostrar-te-ei as coisas que depois destas devem acontecer. Apocalipse 4:1
Reaparece aqui o verbo que conduz o livro inteiro: mostrar. Desde o primeiro versículo — “Revelação de Jesus Cristo… para mostrar aos seus servos” (Ap 1:1) — João é o homem a quem se mostra. Sempre que ele é levado em espírito, o céu lhe abre uma cena. Agora a própria porta do céu se abre, e a mesma voz de trombeta que ele ouvira no capítulo 1 o convoca a subir.
“As coisas que depois destas devem acontecer” ligam esta visão ao esboço dado em Ap 1:19 — “as que são, e as que depois destas hão de acontecer”. As cartas foram as coisas “que são”; a partir daqui abre-se o que “há de acontecer”. E tudo começa não com um exército, nem com um cataclismo, mas com um trono.
2. O trono e Aquele que nele está assentado
E logo fui arrebatado em espírito, e eis que um trono estava posto no céu, e um assentado sobre o trono. Apocalipse 4:2
João não descreve um rosto. Ele descreve luz e pedra preciosa: o que está no trono é semelhante ao jaspe e à sardônica, e ao redor do trono há um arco celeste semelhante à esmeralda (Ap 4:3). É a mesma reverência do Antigo Testamento, onde ninguém vê a Deus e vive (Êx 33:20); João contempla o esplendor, não a face. O arco de esmeralda ao redor do trono ecoa o arco-íris que Deus pôs como sinal da sua aliança depois do dilúvio (Gn 9:13) — a misericórdia cercando o próprio assento do juízo.
Do trono saem relâmpagos, trovões e vozes (Ap 4:5). É a mesma linguagem do Sinai, quando Deus desceu sobre o monte em trovões e relâmpagos (Êx 19:16). O trono do Apocalipse é o mesmo Deus do Sinai — santo, inacessível, envolto em majestade.
3. Os vinte e quatro anciãos
E ao redor do trono havia vinte e quatro tronos; e vi assentados sobre os tronos vinte e quatro anciãos vestidos de vestes brancas; e tinham sobre as suas cabeças coroas de ouro. Apocalipse 4:4
Quem são os vinte e quatro anciãos? A leitura mais coerente com o conjunto da Escritura é a que enxerga neles o povo de Deus completo — as duas alianças reunidas. Doze é o número das tribos de Israel; doze é o número dos apóstolos do Cordeiro. Doze mais doze são vinte e quatro: o Israel da promessa e a Igreja do Cordeiro, sentados juntos diante do trono.
Esse mesmo par de doze reaparecerá no fim do livro, gravado na Nova Jerusalém: doze portas com os nomes das doze tribos de Israel e doze fundamentos com os nomes dos doze apóstolos (Ap 21:12-14). O que os anciãos representam ao redor do trono, a cidade santa representará em pedra: um só povo, formado das duas alianças.
Três detalhes confirmam: eles estão assentados em tronos (reinam), vestidos de branco (justiça dos santos, cf. Ap 19:8) e coroados de ouro. E o que fazem com essas coroas é o coração da cena de adoração, como veremos.
4. As sete lâmpadas e o mar de vidro
E do trono saíam relâmpagos, e trovões, e vozes; e diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo, as quais são os sete espíritos de Deus. E havia diante do trono como que um mar de vidro, semelhante ao cristal. Apocalipse 4:5-6
As sete lâmpadas são identificadas pelo próprio texto: “os sete espíritos de Deus” — a plenitude do Espírito Santo (o sete, número da perfeição). O mesmo Espírito que estava diante do trono na saudação de Ap 1:4 arde agora diante dele em fogo. O mar de vidro semelhante ao cristal aponta a distância e a pureza absolutas que separam a criatura do Criador — um chão de cristal que só se atravessa por convite. Guarde esse mar: ele reaparecerá em Ap 15:2, agora “misturado com fogo”, com os vencedores em pé sobre ele.
5. Os quatro seres viventes
O primeiro ser vivente era semelhante a um leão, e o segundo ser vivente semelhante a um bezerro, e o terceiro ser vivente tinha o rosto como de homem, e o quarto ser vivente era semelhante a uma águia voando. Apocalipse 4:7
Os quatro seres viventes, cheios de olhos e com seis asas, unem duas visões do Antigo Testamento: os querubins de Ezequiel, com quatro faces — leão, boi, homem e águia (Ez 1:10) — e os serafins de Isaías, com seis asas, clamando “Santo, Santo, Santo” (Is 6:2-3). João vê os dois fundidos num só coro. Os olhos por toda parte dizem que nada escapa a Deus; as asas, que a adoração nunca cessa.
Não descansam de dia nem de noite, repetindo o triságio:
Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, que era, e que é, e que há de vir. Apocalipse 4:8
É a mesma tríplice santidade de Isaías, agora diante do trono do Apocalipse. E cada vez que os seres viventes dão glória, os vinte e quatro anciãos respondem com um gesto:
O gesto que define o céu
Os vinte e quatro anciãos se prostram e lançam as suas coroas diante do trono (Ap 4:10). No céu, ninguém guarda a própria coroa. Toda honra recebida é devolvida à fonte. Este é o oposto exato do que veremos na besta que exige adoração para si: aqui, os coroados abdicam de tudo diante Daquele que vive para todo o sempre.
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas. Apocalipse 4:11
No capítulo 4, Deus é louvado como Criador. Guarde esta palavra — digno. Ela é a chave que abre o capítulo 5.
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6. O livro selado com sete selos
E vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. Apocalipse 5:1
Agora a visão avança. Na mão direita de Deus há um livro — na verdade um rolo — escrito por dentro e por fora e lacrado com sete selos. Escrito dos dois lados significa que está cheio: nada falta ao seu conteúdo. Selado sete vezes significa que está perfeitamente fechado: nada dele se conhece enquanto os selos não forem rompidos.
Esse rolo é o propósito de Deus para a história — o desenrolar dos acontecimentos que João verá dos capítulos 6 em diante. Enquanto permanecer selado, o plano de Deus permanece trancado. A pergunta que se segue é, portanto, a pergunta que decide o Apocalipse inteiro.
7. “Quem é digno?” — e o choro de João
E vi um anjo forte, bradando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de desatar os seus selos? E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele. Apocalipse 5:2-3
A busca varre os três andares do universo — céu, terra e debaixo da terra — e volta vazia. Ninguém é digno. Nem um anjo, nem um ancião, nem um justo do passado. Não é só que ninguém consiga abrir: ninguém sequer podia olhar para o livro. O plano de Deus estava fora do alcance de toda a criação.
Por isso João chora:
E eu chorava muito, porque ninguém fora achado digno de abrir o livro, nem de o ler, nem de olhar para ele. Apocalipse 5:4
O choro de João é o choro de toda a humanidade diante de um destino trancado. Se o livro nunca se abrir, a história não tem desfecho, a promessa não se cumpre, o mal não é julgado, os santos não são vindicados. Tudo depende de aparecer alguém digno.
8. O Leão que é Cordeiro
E disse-me um dos anciãos: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu, para abrir o livro e desatar os seus sete selos. Apocalipse 5:5
O ancião anuncia um Leão — o Leão da tribo de Judá (Gn 49:9-10), a raiz de Davi (Is 11:1,10), títulos de força, realeza e vitória messiânica. É o que João é chamado a esperar: um vencedor. Mas veja o que ele de fato vê quando se volta:
E olhei, e eis que estava no meio do trono… um Cordeiro, como havendo sido morto, tendo sete pontas e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra. Apocalipse 5:6
O centro do Apocalipse
João ouve falar de um Leão, mas quando olha, vê um Cordeiro — e um Cordeiro que traz nas suas marcas o sinal de ter sido morto. Aqui está a chave de leitura do livro inteiro: a vitória do céu não veio pela força, veio pelo sacrifício. O Leão venceu sendo o Cordeiro imolado. A força e a mansidão não são duas figuras rivais: são o mesmo Cristo. Ele reina porque foi morto.
Os sete chifres do Cordeiro dizem poder perfeito; os sete olhos, sabedoria e presença perfeitas — os sete espíritos de Deus enviados a toda a terra. O Cordeiro imolado não é fraco: é o Todo-Poderoso que escolheu vencer pela cruz.
9. O Cordeiro toma o livro
E veio, e tomou o livro da destra do que estava assentado no trono. Apocalipse 5:7
Este é o gesto decisivo de todo o capítulo. O que ninguém em todo o universo podia fazer, o Cordeiro faz com naturalidade: toma o livro da mão direita de Deus. A história volta a ter dono. O plano de Deus, antes trancado, agora está nas mãos de Quem é digno de executá-lo. E no instante em que Ele toma o livro, o céu explode em adoração.
10. O cântico novo — e para onde ele aponta
E cantavam um novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro, e de abrir os seus selos; porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo, e nação; Apocalipse 5:9
É o mesmo “digno” do capítulo 4 — mas agora com um fundamento novo. No cap. 4, Deus é digno porque criou. No cap. 5, o Cordeiro é digno porque foi morto e comprou. Criação e redenção: as duas grandes obras de Deus, cada uma coroada com o mesmo louvor. E o preço da compra é nomeado: o sangue. Os redimidos vêm de “toda tribo, língua, povo e nação” — a mesma multidão inumerável de Ap 7:9, os que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro.
✦ O foco do estudo — Apocalipse 5:10
E para o nosso Deus os fizeste reis e sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra. Apocalipse 5:10
Aqui está a palavra que o cântico celeste guarda para o fim — e que este estudo quer sublinhar acima de todas: “e eles reinarão sobre a terra.”
Repare para onde o cântico do céu aponta. Ele é entoado no céu, diante do trono, pelos seres viventes e pelos anciãos — mas não termina no céu. Termina na terra. Os comprados pelo sangue do Cordeiro não foram redimidos para morar eternamente no céu: foram feitos reis e sacerdotes, e o destino desse reinado é sobre a terra.
Esta é a espinha dorsal de toda a nossa leitura do Apocalipse. O propósito de Deus não é retirar a Igreja da terra para sempre; é trazer o Reino de Cristo para reinar sobre ela. O mesmo que o Pai ensinou a pedir — “venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6:10) — é o que o cântico do Cordeiro anuncia como cumprido. É o mesmo destino que se fechará no fim do livro, quando a Nova Jerusalém descer do céu à terra e Deus habitar com os homens (Ap 21:2-3), e quando “reinarão para todo o sempre” (Ap 22:5).
Por isso o versículo 10 não é um detalhe do cântico: é a direção de todo o Apocalipse. O livro que começa a se abrir no capítulo 6 desenrola-se justamente até esse fim — um Reino de Cristo estabelecido sobre a terra redimida.
11. Todo o universo adora
Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riquezas, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e ações de graças. Apocalipse 5:12
O louvor se expande em ondas. Primeiro os quatro seres viventes e os anciãos; depois miríades e miríades de anjos ao redor do trono; e por fim toda criatura que há no céu, na terra, debaixo da terra e no mar (Ap 5:13). O universo inteiro — que pouco antes não achara ninguém digno — agora reconhece o Cordeiro digno de tudo.
E note o clímax do capítulo 5: a mesma honra é dada, num só fôlego, “Àquele que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro” (Ap 5:13). O Cordeiro recebe a adoração devida a Deus, porque o Cordeiro é Deus. O capítulo que começou com a pergunta “quem é digno?” termina com toda a criação respondendo: o Cordeiro. E os seres viventes dizem “Amém”, e os anciãos se prostram e adoram (Ap 5:14).
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A balança — o que é texto, o que é interpretação, o que fica em aberto
Texto explícito
O próprio Apocalipse identifica boa parte das figuras: as sete lâmpadas são os sete espíritos de Deus (4:5); os sete chifres e olhos do Cordeiro são os sete espíritos enviados à terra (5:6); os redimidos são comprados pelo sangue de toda tribo, língua, povo e nação (5:9); eles reinarão sobre a terra (5:10). Nada disso é conjectura: está escrito.
Interpretação
A identificação dos vinte e quatro anciãos como o povo de Deus das duas alianças (12 tribos + 12 apóstolos) é leitura interpretativa — sólida, ancorada no paralelo das doze portas e doze fundamentos da Nova Jerusalém (Ap 21:12-14), mas interpretação. O mesmo vale para ler os quatro seres viventes como a fusão dos querubins de Ezequiel com os serafins de Isaías.
Em aberto
O conteúdo exato do livro selado não é revelado neste capítulo — só se desenrola à medida que os selos se abrem (cap. 6 em diante). E a natureza precisa do reinado sobre a terra (o “como” e o “quando”) pertence ao restante da série, quando chegarmos ao milênio (Ap 20) e à Nova Jerusalém (Ap 21–22).
Síntese
Os capítulos 4 e 5 são a sala do trono de todo o Apocalipse. No capítulo 4, o céu adora o Criador: santo, inacessível, cercado de vida e de coroas que se rendem. No capítulo 5, o céu adora o Redentor: o Leão que venceu sendo o Cordeiro morto, o único digno de tomar o livro do destino e abri-lo.
E o cântico que celebra essa vitória não se fecha nas alturas. Ele desce. Termina anunciando que os comprados pelo sangue reinarão sobre a terra — o mesmo destino que o livro inteiro persegue até a cidade santa descer do céu. Quem abre o livro é o Cordeiro; para onde o livro aponta é a terra restaurada sob o Reino de Cristo. Somente Jesus é digno — e Nele o céu e a terra tornam a ser um.
